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Súmula da reunião realizada no dia 25/03/2010

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REUNIÃO REALIZADA NO DIA 25 DE MARÇO DE 2010
Karina Luiza Assunção Jaciane Martins Ferreira
Durante a primeira reunião do Laboratório de Estudos Discursivos Focaultianos, discutiu-se o prefácio da edição portuguesa do livro As palavras e as coisas (1967). Antes de entrar na leitura do texto, o professor Cleudemar destacou brevemente pontos acerca da obra de Foucault: A História da loucura foi a tese de doutoramento de Michel Foucault. Nesse livro, mesmo não sendo historiador, o filósofo se propõe a fazer um trabalho na história. Essa obra mostra a construção do objeto loucura, ou seja, a formação da loucura a partir de longos séculos para mostrar, assim, como se modificou a cada época. Ao ser olhado sob a perspectiva da História Nova, o livro A História da loucura teve boa receptividade. Logo após essa obra, vem O nascimento da clínica, As palavras e as coisas e depois A arqueologia do saber. Os trabalhos de Foucault foram bastante lidos por intelectuais contemporâneos a ele. Inclusive, nos anos 80, esses trabalhos tiveram um espaço na obra de Pêcheux como algo lido e que aparece na formação da teoria do discurso. O livro A Ordem do discurso traz um dispositivo de poder, delimitação e controle do discurso. Trata da questão de poder, configurando-se como deslocamento da ideia de arquivo para uma ideia de poder na relação com o sujeito e o discurso como algo que perpassa essa relação. Depois d‟A ordem do discurso, publicam-se Em defesa da sociedade, A verdade e as formas jurídicas e Vigiar e punir, que se configura como o último livro sobre poder. Logo após, vem a publicação do primeiro volume d‟A história da sexualidade que também traz considerações sobre o poder, ou seja, discorre sobre de um dispositivo de poder acerca da sexualidade. Esse livro marca o começo de uma nova fase (Ética e estética da existência). Assim, entre o primeiro volume da história da sexualidade e os últimos, Foucault passa um período sem publicar, tendo, nesse ínterim, todas as aulas do livro A hermenêutica do sujeito. Quanto ao livro A arqueologia do saber, o professor Cleudemar destaca seu caráter metodológico e a teoria do discurso com uma relação intrínseca com a Nova História, sendo que o texto discutido nesta reunião traz questões sobre a Nova História. Nesse sentido, a disciplina história sofre transformações, não havendo um consenso entre todos os historiadores da época, começa-se a pensar na constituição do objeto história; a relação temporal e concepção de sociedade, ou seja, há uma ruptura com a hegemonia vigente, uma história que não mais olha apenas os grandes fatos. Vale destacar que, ao olhar a história vista de baixo, estabelece-se uma relação com a
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questão do tempo a qual será bem explicada pela noção de descontinuidade. Antes havia uma dada linearidade ao relatar os fatos históricos. Já na perspectiva da Nova História, elege-se a descontinuidade, ou seja, uma ruptura, como isso, não mais pensa em uma dada linearidade. Sob essa perspectiva,
A noção de descontinuidade toma um lugar importante nas disciplinas históricas. [...] Ela se tornou, agora, um dos acontecimentos fundamentais da análise histórica, onde aparece com um triplo papel. Constitui de inicio, uma operação deliberada do historiador (e não mais o que recebe involuntariamente do material que deve tratar), pois ele deve, pelo menos a titulo de hipótese sistemática, distinguir os níveis possíveis de análise, os métodos que são adequados a cada um, e as periodizações que lhes convêm. (FOUCAULT, 2008, p. 10)
A noção de descontinuidade é importante para que possamos pensar a emergência do discurso, como ele se dá e como ele toca uma descontinuidade, um apagamento, mas ao mesmo tempo integra uma memória, reaparece em épocas posteriores com sentidos modificados. Nesse sentido, os acontecimentos também serão pensados pela diferença, pela coexistência do diferente. A arqueologia nega a imagem do contínuo, ou seja, dada linearidade, pois “as formações discursivas não tem o mesmo modelo de historicidade que o curso da consciência ou a linearidade da linguagem” (FOUCAULT, 2008, p. 191). Daí Foucault abandona o quadro temporal clássico e a idéia de evolução. Assim, a arqueologia das ciências humanas é fundada na diferença. Logo no inicio do texto – primeiro prefácio da edição portuguesa de As Palavras e as coisas –, Lourenço (1967) reflete sobre arqueologia como uma nova metodologia e expõe o panorama que Foucault abre ao iniciar esse novo trabalho. Refere-se ainda à inclusão de campos diversos como a Biologia, Economia, História Natural, Filologia ou Literatura, como o que viabiliza a produção e existência das ciências humanas. É interessante, pois, pensar que ler Foucault faz com que esbarramos em pontos diversos, pois o autor discutirá ciência, saber e produção do conhecimento, mas sem se limitar a um campo científico específico, ou seja, sem se limitar à ciência propriamente dita, possibilitando, assim, que um grupo de Analistas do discurso, como o nosso, possa fazer uso de tais leituras como pressuposto analítico e metodológico. Usando as palavras do autor do prefácio em discussão:
A presente obra de Michel Foucault – cujo sucesso constitui uma surpresa e um enigma, pois não é obra fácil – oferece não só uma leitura original da História das Idéias na Europa, desde o século XVI ao século XIX, como uma nova metodologia, designada pelo seu autor sob o conceito de arqueologia. (LOURENÇO in FOUCAULT, 1967, p. III)
Quando Foucault discute sobre o saber a partir de áreas do conhecimento como a Biologia, Economia e Filosofia, como algo que se desloca para a vida, não se limita ao fazer científico, mas abre um novo campo epistemológico para pensar o sujeito como função dos campos de saber. A
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palavra epistemologia vem sempre colocada entre aspas, pois falar de epistemologia implica um campo científico, determinação do olhar científico, nesse caso, o método arqueológico. Usando as palavras de Lourenço:
A verdade é que esta maneira de interrogar pertence ao que Michel Foucault chama um „campo epistemológico‟, quer dizer, aquela intenção implícita que estrutura uma área cultural mas permanecendo „invisível‟ àqueles que a utilizam, ou antes, àqueles que ela utiliza... pois, como veremos, „o sujeito‟, „consciência‟ são ficções de um desses campos epistemológicos. (LOURENÇO in FOUCAULT, 1967, p. IV)
Nesse sentido, Foucault não se limita a uma disciplina, mas reflete sobre a episteme de uma dada época a partir do que ele vai construir como a arqueologia do saber, tudo isso para pensar o sujeito como função, ou seja, pensar o sujeito dos grandes campos epistemológicos. Surgem, à luz de nossas discussões, dúvidas acerca dos termos epistemologia, episteme, positividade e prática discursiva: epistemologia, refletir sobre a função sujeito nesses campos. Temse, até uma dada época, um sujeito como centro, quer na fenomenologia, bergsonismo e humanismo há o predomínio da razão: o sujeito existe, pensa e tem individualidade no mundo. Então, discute sobre de uma episteme, palavra que, ao lado da palavra epistemologia, apresentam-se como palavras derivadas uma da outra, e, muitas vezes, tomadas como sinônimas. Epistemologicamente inscrevemo-nos em dado campo científico para refletir a partir desse lugar. Foucault rompe com a questão da ciência não para descartá-la, mas para considerar as práticas discursivas dentro de campos científicos e não científicos. Tem-se a loucura como exemplo, objeto que integra práticas diferentes em épocas diferentes. Já a positividade é um conceito que aparece bastante em Foucault, é lido como algo que incita, faz com que a produção aconteça, no sentido do que é produtivo. “Analisar as positividades é mostrar segundo que regras uma prática discursiva pode formar objetos, conjuntos de enunciações, jogos de conceitos, séries de escolhas teóricas” (FOUCAULT, 2008, p. 204). Assim, a episteme pode ser tomada como um parâmetro norteador para a positividade, uma perspectiva a partir de um dado olhar. Foucault não tem uma epistemologia propriamente, mas ao mesmo tempo há uma epistemologia quando ele pensa a produção do conhecimento no século II a. c., como era a função sujeito, como o sujeito exercia uma função naquela época, ou seja, como consiste a construção do conhecimento e como esse sujeito exerce uma função em diversos campos de conhecimentos. Uma reflexão no sentido de apontar para a necessidade de trabalhar com a coexistência do diferente. Até dada época o sujeito era tido como uno, racional, ao que, embasado em Nietzsche, Foucault contrapõe o descentramento: não “há um acontecimento, mas pluralidade de sentidos” (LOURENÇO in FOUCAULT, 1967, p. VI), implicando, assim, uma noção de verdade. Diferentes
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verdades são construídas, “a verdade é „dita‟ pelo conjunto de fenômenos culturais, permanecendo os participantes neles fora dela” (LOURENÇO in FOUCAULT, 1967, p. XV). Essa afirmação gera conflitos, pois naquele momento, na filosofia, reinavam as ideias de Sartre, as quais consistem no existencialismo, projeção do eu, sujeito da existência. Assim, todas as concepções de sujeito da fenomenologia, existencialismo sartreano, humanismo, racionalismo serão contrapostas ao posicionamento de que não há um acontecimento, mas pluralidade de sentidos. A isso implica uma noção de história, descontinuidade, verdade, a qual será pensada a partir do posicionamento de sujeito. Esse sujeito configura-se como um sujeito descentrado, não sendo, dessa forma, dono de si. A verdade é algo relativo aos posicionamentos dos sujeitos, daí os sentidos serem diferentes, porque os sujeitos estão em lugares diferentes. Então, sobre o mesmo acontecimento diferentes sentidos são produzidos. Diferentes verdades são construídas, chegando à questão do discurso enquanto prática discursiva. Ao se tratar de discurso, segundo Foucault:
[...] temos o costume de considerar que os discursos e sua ordenação sistemática não são mais que o estado final, o resultado de última instância de uma elaboração, há muito tempo sinuosa, em que estão em jogo a língua e o pensamento, a experiência empírica e as categorias, o vivido e as necessidades ideais, a contingência dos acontecimentos e o jogo das coações formais. Atrás da fachada visível do sistema, supomos a rica incerteza da desordem: e sob a fina superfície do discurso, toda a massa de um devir em parte silencioso: um „pré-sistemático‟ que não é da ordem do sistema: um „pré-discursivo‟ que se apóia em um essencial mutismo. Discurso e sistema só se produziriam – e conjuntamente – na crista dessa imensa reserva. (FOUCAULT, 2008, p. 85)
Durante a discussão sobre discurso e práticas discursivas surgem então dúvidas acerca do termo práticas não discursivas, trazido por Foucault em A arqueologia do saber (2008, p. 75). Tendo em vista que o discurso se estabelece em uma rede, ligado a outros discursos, torna-se difícil mensurar o que são as práticas não discursivas, mesmo porque o autor menciona esse termo após explicar sobre as formações discursivas e a possibilidade de surgir discursos outros dentro de uma dada formação discursiva, salientando que “trata-se de uma modificação no princípio de exclusão e de possibilidades de escolhas, modificação que é devida à inserção em uma nova constelação discursiva”. (FOUCAULT, 2008, p. 75). Vem, portanto, à luz de nossas discussões, o fato de a gramática normativa ter uma certa abertura para ser considerada como uma prática não discursiva, mas, ao pensar no caráter de uso dessa gramática, partindo do fato de que o sujeito pode fazer uso dela ou não a medida que lhe for necessário, ela perde o caráter não discursivo, pois entrará em um nova rede de sentidos. O segundo texto discutido, escrito por Virgílio Ferreira, é uma crítica ao estruturalismo, principalmente a Althusser, Lacan e Foucault, defendendo, sob um viés existencialista, a idéia de que o estruturalismo é uma barragem burguesa ao marxismo. Para o autor, o existencialismo
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também é uma barragem ao marxismo. A questão fundamental trazida por Ferreira (1967) é que no estruturalismo o sujeito não pensa, mas é pensado, afirmando que o estruturalismo não se interessa em saber como se operou um determinado estado de coisas culturais para verificar apenas esse estado de coisas e simultaneamente notar que é ele que pensa no sujeito contra o que poderia supor a autonomia desse sujeito, ao eu penso e isso pensa. Ça parle e ça pense, trazido da teoria de Lacan, significa que há algo fora do sujeito, mas que atua nesse sujeito. O autor do texto critica o fato de certos estruturalistas quererem introduzir Marx no estruturalismo, mas não como parte de um sistema, como Althusser o considera, e critica, também, a Foucault por parecer não compactuar com a genialidade de Marx:
O estruturalismo seria uma genealogia no estudo de simples camadas sobrepostas, esquecendo o mais interessante, que seria o estudo da passagem de uma camada a outra. Ora a sincronia da análise estruturalista não visa especificamente opor-se à diacronia historicista, nomeadamente à de um Marx: visa apenas frisar que a diacronia tem falhas para a continuidade de uma explicação. (FERREIRA in FOUCAULT, 1967, p. XXIII)
Essa é, pois, a crítica que ele faz a Foucault de que ele não estrutura a história como uma causa e consequência; essa relação, segundo o autor, é de extrema importância para o entendimento da história. Afirma, assim, que Foucault está equivocado ao considerar a história descontínua. Nesse ponto da discussão, em nossa reunião de estudos, afirmou-se que Foucault foi muito inovador para o autor do texto, pois exigiria de críticos, no caso de Virgílio Ferreira, um rompimento com conceitos que ainda estavam muito arraigados em sua constituição teórica. Ferreira (1967) não teria alcançado o caráter inovador nas reflexões de Foucault. Depois de questionar sobre o fato de Foucault ser estruturalista ou não, levantou-se a seguinte questão: O que é estruturalismo? Sem a proposição de uma resposta definitiva, o professor Cleudemar fez considerações como: é pensar na estrutura no sentido de pares interdependentes, um jogo de um em relação com o outro, realizando, como exemplo, uma analogia com uma casa. O que é a estrutura de uma casa? É o telhado? As paredes? As portas? Não é isso, mas sim a forma como esses elementos estabelecem uma relação, implicam-se uns aos outros. Saussure é um bom exemplo para essa relação a partir de suas dicotomias, pois percebemos nelas uma relação de dependência para existir. Concluímos com os comentários efetuados em nosso primeiro encontro que a leitura de ambos os textos foi produtiva para pensar o momento da produção de um pensamento científico, no caso o de Michel Foucault, quais as questões e mecanismos são colocados no momento da produção científica. A leitura ainda possibilitou-nos ter uma visão do momento de produção ou mesmo o que a crítica comentou na época em que a obra As palavras e as coisas foi publicada.
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REFERÊNCIAS:
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Portugália: Lisboa, 1967.
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